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Este não é um livro sobre futebol”: José Manuel Delgado detalha o duro processo de escrever a biografia de Diogo Jota

José Manuel Delgado apresentou no 'Conta lá' a biografia oficial de Diogo Jota, um livro emotivo sobre a vida do jogador e do irmão André Silva.

O Juca do ‘Conta Lá’ recebeu José Manuel Delgado, jornalista e escritor, para uma entrevista conduzida por Júlio Magalhães sobre a biografia oficial de Diogo Jota.

A obra, lançada recentemente, homenageia a vida do internacional português e do seu irmão, André Silva, que perderam a vida a 3 de julho de 2025, reunindo uma vasta panóplia de testemunhos que vão desde a esfera familiar até ao balneário do Liverpool.

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Em conversa com o apresentador Júlio Magalhães, o autor revelou os pormenores exaustivos de um processo de escrita marcado pela dor, mas suportado pelo profundo amor de quem rodeava o jogador.

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Logo no início da entrevista, Júlio Magalhães salientou que a perda não chocou apenas o país, mas o mundo inteiro. José Manuel Delgado concordou e fez questão de clarificar o marco temporal e o peso da tragédia recente: “Foi há menos tempo, foi no dia 3 de julho. 3 de julho, ainda não fez um ano, ainda está muito fresco.”

O autor confessou que a verdadeira dimensão mundial do atleta apenas se tornou totalmente percetível quando viajou para território britânico para a sua pesquisa. “Perguntas-me porque é que o Diogo tinha esta dimensão mundial. Eu só consegui perceber realmente o fenómeno do Diogo Jota quando fui a Liverpool. E através de inúmeros contactos, quer com adeptos, quer com jornalistas, quer com jogadores, quer com membros do staff da Liverpool, percebi a razão do amor que havia em Liverpool relativamente ao Diogo”, afirmou.

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Para ilustrar essa imensa paixão e devoção, o biógrafo partilhou uma conversa marcante com o porta-voz do sindicato dos adeptos do clube britânico, que tem assento na direção. “Ele dizia o seguinte, o Liverpool passou por várias tragédias, passou pelo Heysel, passou por Hillsborough, e conseguiu sempre lutar contra as injustiças que se seguiram e aprendeu a sofrer. É formado por pessoas, aquelas que estão no The Kop, que é a bancada mítica do estádio de Anfield, que preferem não ir de férias para o estrangeiro, ou não ir jantar fora, ou não ir almoçar fora, para terem dinheiro para ir ao futebol, ver o Liverpool”, relatou o autor.

O nível de exigência desses adeptos era simples, mas inegociável, assentando na mais pura dedicação. “E a única coisa que exigem aos jogadores é dedicação máxima. E ele tem uma expressão muito feliz que é, se cada jogador, cada adepto do Liverpool tivesse talento para jogar futebol e pudesse jogar na equipa principal do Liverpool, teria de ser o Diogo Jota. Porque ele simbolizava aquilo que os adeptos gostavam de ver num jogador do Liverpool, um jogador que vestisse a camisola vermelha do Liverpool”, explicou.

O impacto e o respeito que o avançado conquistou estendiam-se a toda a gigantesca estrutura do clube. “É um clube absolutamente extraordinário. A perspetiva que eles têm histórica e a perspetiva da homenagem e a perspetiva do respeito são de facto fabulosos”, elogiou o autor, antes de detalhar a massiva mobilização para as cerimónias fúnebres. “Eles organizaram-se para virem ao funeral do Diogo e do André, de uma forma rapidíssima, contactaram uns com os outros, criaram uma rede de contactos que começou no diretor de comunicação e passou por uma série deles com o Virgil van Dijk a servir de pivô e conseguiram vir praticamente todos os jogadores que estavam nos outros continentes, inclusive vieram jogadores que já não estavam a jogar no Liverpool e que imediatamente se mobilizaram para conseguirem apanhar a boleia nos dois aviões que o Liverpool trouxe ao Porto para o funeral em Gondomar. O caso do Milner que estava no Brighton e os casos do Henderson e do Kelleher que estavam no Brentford”, enumerou.

O biógrafo notou que estes três últimos atletas britânicos faziam parte do círculo mais apertado do avançado luso. A importância do internacional português no balneário ultrapassava, de resto, as quatro linhas e a barreira dos idiomas. “Eram de facto um grupo bastante unido e depois o Diogo tinha outra vantagem que os colegas referem, o treinador, o Arne Slot também o disse, o Jurgen Klopp também o disse, o Diogo dava-se muito bem com os ingleses, falava inglês muito bem, dava-se muito bem com este grupo, repara tem o Kelleher que é irlandês, o Robertson que é escocês e depois dois ingleses, o Milner e o Henderson. Dava-se bem com eles, mas depois fazia a ponte com os que falavam português e com os que falavam espanhol, portanto com os da América do Sul e criava, acho que é o Arne Slot que diz, não, ele era uma espécie de cola que nós tínhamos no balneário e que nos unia, portanto ia para além da valência tremenda que tinha como jogador”, detalhou.

Dentro de campo, o seu talento levava muitas vezes a comparações com grandes lendas do passado do clube inglês. “E é curioso porque eles comparam-no, os adeptos, ao Robbie Fowler, porque o Diogo era um finalizador fantástico. E eles diziam, se as coisas estavam paradas, 5 minutos do fim, estávamos a ganhar 2-1 ou estávamos empatados e a bola ia para a área do adversário, todos queríamos que a bola caísse nos pés do Diogo porque ele era o melhor a finalizar e marcou inúmeros golos em situações desse género, assim como o Robbie Fowler. E eles também diziam, o Robbie Fowler nascido e criado em Liverpool, o Diogo nasceu em Gondomar mas para nós era como se estivesse nascido em Liverpool”, recordou José Manuel Delgado.

O processo da recolha de dezenas de testemunhos foi exaustivo e marcado por um forte sentido de dever de quem com ele privou. “Recusa não, há algumas pessoas, eu não consegui ouvir. Também caberiam aí, mas cabiam. Mas é curioso a questão que colocas porque realmente não tive nenhuma recusa. Mas não havia ninguém que quisesse falar. Ou seja, as pessoas falaram, a começar pela família, penso eu que por amor, por quererem que ficasse preto no branco, escrita a história do Diogo Jota e a história do André que tem um capítulo no livro. Mas não foi por gosto, foi quase que por obrigação. E depois nós tivemos muitos momentos em que nos rimos, em que contaram histórias, mas depois no fim nenhuma conversa foi fácil”, confessou com transparência.

Profissionalmente, a tarefa foi implacável e deixou marcas no experiente escritor, que lidou de perto com o peso do luto diário. “Assim, em termos profissionais foi o trabalho mais difícil que fiz. E recordo que em Liverpool, tive um dia em que passei o dia na academia do Liverpool, no AXA, e o médico do Liverpool depois de falar comigo disse-me assim, olha, você tenha cuidado consigo porque isto que está a fazer é muito duro. Mas cada vez que eu tinha pena de mim pensava nos outros. E esse sim, não há comparação”, desabafou com comoção.

A génese do projeto começou a ganhar uma forma estruturada logo nos instantes do derradeiro adeus. “A cronologia foi a seguinte, na véspera do funeral, o Pedro Proença perguntou-me se eu queria escrever a biografia do Diogo Jota. Logo. Eu disse-lhe que sim, e tivemos algumas reuniões na federação, e depois tivemos no dia 2 de setembro, no dia em que foi a homenagem ao Diogo Jota e ao Jorge Costa, em que foram colocadas as camisolas em bronze na cidade do futebol, tivemos uma reunião mais alargada em que esteve presente o Pedro Proença, estiveram presentes os pais, o Joaquim e a Isabel, a mulher, a Rute, o Jorge Mendes, o Armando Valque que era o amigo dele que tratava dos e-sports, e aí falamos pela primeira vez sobre, eu apresentei-lhes a minha ideia para o livro, que passava por um início em que se contava a parte mais dolorosa, mais difícil, se calhar mais crua, e depois o segundo capítulo iria começar com o dia em que os pais se conheceram”, explicou o autor.

A narrativa da obra ganha força precisamente pela recusa de ser apenas mais um relato tático ou desportivo. “E pronto, e depois a partir daí desenvolve-se, de uma forma quase cronológica, com a Rute a ter um grande protagonismo, a partir dos 15 anos do Diogo, ela começa a namorar o Diogo, ela com 16, ele com 15, ali com uma diferença de 5 meses entre um e outro, mas depois é seguida uma cronologia. Depois tem testemunhos de pessoas de várias origens, amigos, jogadores, treinadores, e é curioso, e se calhar este não é um livro de futebol. Este não é um livro de futebol, nem sobre futebol. E quem quiser o futebol, pois na parte final do livro tem as 300 e tal fichas de jogos, todos os jogos oficiais que o Diogo fez, mas durante o livro não se fala quase nada de futebol, não se fala de pessoas, e é muito curioso, era a maneira de ser do Diogo”, sublinhou perante o apresentador.

O caráter do jogador e a sua génese familiar foram os grandes escudos para que o mediatismo milionário não o mudasse. “Os amigos dele, ele tinha um grupo, com ele eram 6, em Gondomar, que se conheceram com 8 anos nas escolas do Gondomar, e esse era o núcleo duro. E depois tinha mais um grupo, que conheceu, quando estava no Júnior e no primeiro ano de Sénior, no Paços de Ferreira, e se formos ver quem foram os padrinhos de casamento dele, foram esses, mais o irmão. Portanto, ele manteve as amizades, o sucesso não lhe subiu à cabeça, de maneira nenhuma, continuou a ser absolutamente genuíno, e eu creio que isso fica retratado no livro”, observou o biógrafo, apontando a isenção emocional com que abordou as recolhas: “Eu tive a vantagem de não conhecer o Diogo J. pessoalmente, portanto tive que perguntar tudo, de início, a toda a gente, para se conseguir, e eu penso que isso é conseguido, traçar-se um retrato fiel do Diogo J”.

A conceção da biografia teve um propósito claro desde a primeira hora para os familiares. “Eu, em conversas com a mulher, com a Rute, dissemos várias vezes, não, isto é uma coisa para os filhos verem, para o Dinis e para a Mafalda verem e saberem um bocadinho mais sobre o pai e sobre o tio“, revelou José Manuel Delgado. O comportamento protetor e reservado de toda a família não passou despercebido. “Sim, sim, foi mesmo para ficar registado, e da parte da família mais próxima, foram atos de coragem, porque de facto não queriam, não tiveram gosto nenhum, obviamente, não quiseram protagonismo, melhor colocando a questão, não tinham vontade nenhuma em ter protagonismo, e o facto é que não deram entrevistas a nenhum meio, a nada, reservaram-se para o livro”, contextualizou.

Ao longo de toda a escrita, o maior cuidado prendeu-se com os limites impostos pela dor. “Procurei, e conversando com eles, especialmente com o Joaquim, com a Isabel e com a Rute, ver se havia algum ponto que ultrapassasse a sensibilidade deles, aliás, no primeiro dia, nesse encontro na cidade do futebol, a única coisa que eu lhes prometi é que não ia ser nada que os deixasse desconfortáveis. E isso manteve-se”, asseverou. Outro dos compromissos passou por assegurar um destaque justo ao irmão. “O André tinha que ter um capítulo, não sendo a biografia do André, devia ter um capítulo que contasse a vida dele, o percurso desportivo, o percurso académico, a vida pessoal, como estavam as coisas, e isso creio que também é um ato de respeito com os pais”, assinalou. Todo este arquivo escrito ganha mais cor e emoção no registo fotográfico reunido, com “32 páginas só de fotos que foram oferecidas, disponibilizadas pelos amigos e pela família. Praticamente não há fotos da agência, são as fotos pessoais, as fotos dos amigos, dos companheiros de equipa, dos familiares, que fazem esse mosaico, são cerca de 100 fotografias, que compõem um mosaico também que ajuda a perceber quem foi o Diogo”.

As circunstâncias da fatalidade, ocorrida nos dias que se seguiram à cerimónia do seu matrimónio com Rute Cardoso, multiplicaram a profunda incredulidade mundial, criando um fenómeno social que o jornalista identificou de forma muito pragmática. “Tudo isso potenciou o choque, e depois há uma coisa que é o efeito James Dean, que é morrer jovem no auge da vida e da carreira, em circunstâncias absolutamente trágicas. Esse efeito verificou-se, potenciado pelo facto de ter casado 10 dias antes, potenciado por todo o choque gerado, e há uma parte do livro que para mim é particularmente impressionante, que é quando regressam de Espanha para Gondomar, em Cortejo Fúnebre, quando passam em Espanha, em cima dos viadutos estão pessoas com lenços e com cachecóis, e depois em Portugal, já era noite, há pessoas com telemóveis com as lanternas dos telemóveis a acenar, à medida que o cortejo ia passando. Essa parte eu acho profundamente movente, porque deu-lhe a ideia da dimensão popular. Aquilo eram pessoas que não conheciam o Diogo, mas que sentiram aquela perda”, recordou com especial comoção no olhar.

No encerramento da conversa, Júlio Magalhães elogiou a monumentalidade do livro e quis perceber como sobrevive a família a todo este cenário. O autor do livro concluiu a partilha evidenciando a força espiritual inabalável da família. “Sim, é assim, tem que se reinventar, tem que se reinventar, a Rute tem 3 crianças para educar, os pais do Diogo têm procurado homenagear sempre que possível a memória dos filhos, e o pai do Diogo tem uma frase muito significativa, disse-me muito recentemente, já depois do livro ter saído, que se Deus os levou e os deixou a eles ficar, por alguma razão foi, e provavelmente essa razão foi a de estarem cá para continuarem a homenagear os filhos”, rematou.

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