A aproximação entre ambos deu-se apenas na juventude, unidos pela cumplicidade em torno da criação artística e das conversas sobre pintura.
A infância de Manuel João Vieira ficou marcada pela ausência das principais figuras familiares, a começar pelo afastamento do pai, o artista plástico João Vieira. Questionado no «Alta Definição» sobre a ordem de importância da figura paterna, o líder dos Corações de Atum recordou o distanciamento inicial: “O meu pai não me lembrava muito dele porque ele foi-se embora quando eu tinha um ano e meio. Nessa época que eu estou a falar, que foi antes dos seis anos, não tinha assim, pronto, era como se fosse um tio afastado. Não me lembro muito bem dele nessa altura. Lembro-me depois. O meu avô era uma espécie do nosso pai, que vinha aos fins de semana“.
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O elo afetivo começou a consolidar-se numa fase mais tardia do seu crescimento: “O meu pai não me parecia uma pessoa muito próxima. Comecei a dar-me melhor com o meu pai na adolescência. E aí existiam coisas em comum, não propriamente a pintura, mas a arte em geral. E as conversas acerca disso (…) Eu gosto muito das coisas do meu pai, mais de umas do que de outras, mas adoro a arte que ele faz. Mas é bastante distinta da que eu faço. Eu parece-me que venho mais da banda desenhada“.
Apesar de terem exposto em conjunto no Algarve com o projeto «Dois Limões em Férias», a morte do mestre deixou conversas técnicas por concluir: “Fica sempre [coisas por dizer] (…) Ficaram coisas por dizer e hoje em dia, se estivesse com o meu pai, se ele ainda estivesse vivo, eu iria fazer uma coisa que era ir ter uma aula de pintura com ele, porque ele pintava com espátula. E há várias coisas que percebo, outras coisas que eu não percebo. Técnicas, gostava muito de falar com ele“.
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A relação com a mãe, ausente devido a uma tuberculose grave que a levou para um sanatório na Suécia, também moldou a sua vivência solitária: “Isto houve sempre algum problema ali de separação (…) A minha mãe deve ter sentido qualquer coisa quando ela se foi embora. Talvez me tenha sentido solitário em relação a isso. Depois a minha mãe voltou da Suécia quando eu tinha seis anos e as coisas foram para outro grau de normalidade“.