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“Não cheguei a tempo de dar o último beijinho”: João Vicente e o duro relato dos últimos dias da avó

João Vicente emociona-se ao recordar a avó no «Alta Definição» da Sic

O ator abriu o coração a Daniel Oliveira sobre as férias da infância, as gargalhadas partilhadas e as tentativas de ensinar a idosa a ler.

A entrevista de João Vicente a Daniel Oliveira no programa «Alta Definição», da SIC, ficou marcada por memórias tocantes, especialmente quando o ator recordou a convivência e a ligação com a avó materna. O artista viajou no tempo para revisitar as férias da meninice, a cumplicidade nos momentos de riso e o processo doloroso associado à fase final de vida da familiar, revelando como encontrou serenidade após o luto.

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Ao recordar os tempos de criança, o convidado elegeu esses momentos como os mais marcantes de todo o seu crescimento. “As férias em casa da minha avó, dos lanches, dos almoços em casa dela, são coisas das quais eu tenho muitas saudades. Eu ia à bica com ela a seguir ao almoço e era muito divertido“, partilhou.

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O ator descreveu a idosa como “um público fácil” para as suas graças e brincadeiras: “Eu quando digo que ela era um público fácil em relação às minhas piadas e às minhas palhaçadas (…) era uma validação, exatamente. E eu acho que procuro um bocado isso também como ator, de alguma forma“.

Havia ainda uma cumplicidade pedagógica genuína entre os dois: “A minha avó não sabia ler e lembro-me que eu tentei ensiná-la a ler. E ela aprendeu qualquer coisa (…) chegava ao pé dela com os meus livros da escola e tentava que ela começasse a ler, começasse a juntar as palavras, as sílabas, mas ela já não tinha pachorra para aquilo e eu também não conseguia dar-lhe a volta“.

A idosa, que mais tarde descobriu que as novelas eram ficção e desatava a rir nas cenas de maior dramatismo, deixou marcas indeléveis na sua identidade artística. Contudo, o período que antecedeu a sua partida revelou-se um dos mais exigentes para o ator a nível psicológico. “A minha avó foi para um lar no fim da vida. Ela foi para um lar, ainda falava, mexia-se, tudo andava, tudo funcionava. Mas houve uma altura em que ela começou a ficar acamada e deixou de falar, deixou de se mexer“, começou por relatar.

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O desgaste das idas semanais ao lar tornou-se difícil de gerir perante o declínio evidente da idosa. “Todas as vezes que eu lá ia sentia que me estava a despedir dela. E houve uma vez que isso me bateu muito. Foi assim muito difícil para mim perceber que tinha ali a minha avó, que a qualquer momento podia partir. Ia lá todas as semanas. E percebi: se calhar esta é a última vez que eu venho, porque estás-me sempre a despedir da minha avó. Eu não tenho a certeza se ela me vê, ou se me ouve, ou se me reconhece. Então, bom, se calhar vou… se calhar esta é a última vez que venho, para já, durante algum tempo. Depois vejo como é que a coisa evolui“, confidenciou a Daniel Oliveira.

O desenlace acabaria por ditar um desencontro doloroso cerca de dois meses volvidos. “Passaram-se para aí dois meses e a minha avó continuava viva. E eu: bom, acho que vou lá outra vez. Então, no dia em que eu e o meu irmão combinámos lá ir, a minha avó morreu. Ou seja, não cheguei a tempo de dar o último beijinho ou de dizer as últimas palavras“, relatou o artista.

Apesar da dor sentida no momento da perda, João Vicente explicou que conseguiu encontrar paz e arrumar os sentimentos ao longo do tempo. “Isso custou-me na altura. Hoje em dia estou muito em paz com isso porque fiz o que pude. Também temos os nossos limites emocionais. Hoje em dia, para mim, a despedida está feita. Está feita interiormente. Foi feita na altura do velório, do funeral e tudo mais. Hoje estou muito em paz com a memória dela e com tudo o que a minha avó foi e ainda é dentro de mim“, rematou, certo de que ela sempre nutriu um enorme orgulho pelo seu percurso na representação.

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