Geral

O desabafo de Manuel Moreira sobre a adolescência: “Não me passava pela cabeça dizer que gostava daquele rapaz”

Manuel Moreira confessou que a sua adolescência foi marcada por uma descoberta sexual muito tardia devido ao preconceito da época.

A presença de Manuel Moreira e Inês Castel-Branco no podcast “Não Mandas em Mim”, de Inês Lopes Gonçalves, rendeu momentos de enorme profundidade e partilha.

Uma das confissões mais marcantes do episódio surgiu quando o ator recuou até à sua adolescência nos anos 90, revelando como a descoberta da sua sexualidade foi um processo solitário e tardio, muito diferente da euforia vivida pela maioria dos jovens dessa idade.

Manuel Moreira assumiu que a sua geração lidou com um deserto de referências. “Há uma coisa que é muito comum… pessoas, sobretudo homens homossexuais da minha geração, e hoje em dia sinto que já não é assim, que há uma data de muitas das dos disparatos ou das euforias que acontecem na adolescência têm a ver com a descoberta do amor, com a descoberta do sexo, com as hormonas aos saltos e tal. E até à minha geração, as pessoas homossexuais, tirando uma exceção ou outra, viviam isso tudo muito mais tarde porque era tudo muito primitivo”, começou por explicar o ator.

Leia também: Catarina Furtado reage à polémica de Cristina Ferreira e avisa: “O crime não deve ser normalizado através de uma retórica descuidada”

Lembrando a realidade da época, Manuel sublinhou o peso do silêncio: “Ou seja, eu não me passava pela cabeça nos anos 90, não me passava pela cabeça e não passava pela cabeça a 90% dos meus amigos com quem eu já falei sobre isto tudo, dizer a alguém: ‘eu gosto daquele rapaz’ (…). Essas experiências que informam muito a adolescência da maior parte das pessoas eu não tive, e não tive até aos 19, 20 anos”. O resultado prático desse bloqueio foi radical. “Até ao fim da adolescência, até aos 18 anos, fui uma pessoa praticamente assexual”, confessou, justificando a situação com a absoluta ausência de identificação, “nem nas séries de televisão, nem nas telenovelas”.

Leia também: De Jardins Proibidos ao Kológica: Vera Kolodzig reflete sobre a sua reinvenção e a nova dieta

Foi neste contexto de repressão e descoberta tardia que a noite surgiu como uma verdadeira tábua de salvação, tanto para Manuel como para Inês Castel-Branco. A atriz recordou o impacto que a emblemática discoteca Lux Frágil teve na sua juventude. “Para mim, a grande liberdade foi quando eu descobri o Manuel Reis. Quando eu descobri o Lux, quando eu descobri aquele tipo de noite e aquele tipo de espaço em que tu podias ser o que tu quisesses e que não eras julgado, pelo contrário, eras admirado. A diferença era louvada. Era incrível”, lembrou Inês, fascinada com o ambiente vanguardista e sem preconceitos.

Manuel Moreira subscreveu por inteiro o sentimento da grande amiga, destacando o papel fundamental das pistas de dança na afirmação pessoal e na cura de quem se sentia à margem. “Eu acho que a noite em geral, ou pelo menos os espaços saudáveis da noite, são sítios de grande liberdade. (…) Para mim, de todas as formas artísticas e de convívio que já se inventaram a música e a dança, ou seja, o ritual das pessoas se juntarem no mesmo espaço físico para ouvir música e para mexerem os corpos, cada um à sua maneira, para mim é o ritual mais importante que já se inventou em comunidade”, concluiu o ator, garantindo que a noite continua a ser, até hoje, “um poder libertador” na sua vida.

Publicidade

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Botão Voltar ao Topo