“Ousada e inventiva”: Poetisa canadiana Anne Carson consagrada com o Prémio Nobel da Literatura
Das tragédias gregas à consagração máxima: Anne Carson conquista o Prémio Nobel da Literatura
A autora canadiana de 76 anos foi distinguida pela Academia Sueca pela capacidade ímpar de fundir a tradição clássica com formas inovadoras da escrita contemporânea.
A poetisa, ensaísta e tradutora canadiana Anne Carson foi galardoada com o Prémio Nobel da Literatura deste ano. A escritora, de 76 anos, viu o seu trajeto consagrado pela capacidade singular de cruzar as fronteiras entre a poesia, a ficção narrativa e o rigor da erudição académica.
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A decisão foi anunciada pelo comité responsável, que fundamentou a escolha “pela sua obra ousada e inventiva que, em diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea“.
Confrontada com a notícia pela emissora pública RUV, na Islândia, país onde se encontra instalada, a autora reagiu com boa disposição e espanto. “Acho que todos eles são loucos… Bem, você sabe, é uma loucura“, gracejou perante a distinção máxima das letras mundiais.
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O reconhecimento traduz-se na entrega de 12 milhões de coroas suecas, valor equivalente a cerca de 1,2 milhões de dólares, atribuído ao conjunto e à relevância de uma carreira ímpar. Ingrid Carlberg, secretária permanente da Academia Sueca, relatou o contacto telefónico estabelecido momentos antes da divulgação pública. “Ela teve tempo de me dizer que, no momento, está na Islândia, onde está a ouvir o vento“, detalhou a responsável, acrescentando: “Ela ficou surpreendida, mas muito feliz. Percebi isso pela voz dela“.
Nascida em Toronto em 1950, a viver no estado norte-americano do Michigan e detentora de nacionalidade islandesa desde 2022, Anne Carson lecionou estudos clássicos durante mais de três décadas, bebendo na literatura grega a inspiração central para as suas criações.
Anders Olsson, presidente do comité da Academia Sueca, sublinhou o impacto transformador da galardoada: “Esse método de escrita resulta em obras lúdicas e irónicas que transitam não apenas entre a poesia clássica e a moderna, mas também entre diferentes géneros e formas de arte“.
O responsável sustentou ainda que “as suas colaborações com artistas visuais e coreógrafos, bem como com diretores de ópera e teatro, demonstram a liberdade com que ela se relaciona com as expectativas literárias e os sistemas de regras“, o que fundamenta a relevância marcante do seu legado desde os anos 1990.
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O primeiro-ministro canadiano, Mark Carney, felicitou publicamente a escritora através das redes sociais, classificando a conquista como “um momento de orgulho para o Canadá“.
O governante assinalou que os textos de Carson patenteiam “sagacidade, imaginação e um estilo inteiramente próprio“, elogiando o modo como a autora “trouxe histórias antigas para novos públicos e transformou a maneira como pensamos sobre literatura“.
No currículo da vencedora destacam-se publicações incontornáveis como The Glass Essay, Autobiography of Red: A Novel in Verse, Nox, Float e The Beauty of the Husband: A Fictional Essay in 29 Tangos. Em 2019, concebeu o espetáculo Norma Jeane Baker of Troy, traçando paralelos entre Helena de Troia e Marilyn Monroe.
Dois anos depois, reinventou a tragédia euripidiana na novela gráfica As Troianas: Uma História em Quadrinhos, tendo a sua versão cénica de Electra, de Sófocles, subido aos palcos em Londres com interpretação de Brie Larson no papel principal.