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ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: “A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!”

Homossexual? O Senhor Jogos Sem Fronteiras responde a tudo. Sem tabus.

A conversa que nunca teve. Sem fugir a nada. O amor proibido pelos pais. O descapotável de 90 contos. A gratidão eterna a Carlos Cruz. O tributo a Fialho Gouveia.

A vingança da “inconcebível” Felipa Garnel. As manias do vizinho Carlos Castro que “o levaram ao final que teve”. O afastamento de Herman. As anedotas sem piada de Vasco Palmeirim. E muito mais…

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DIOGUINHO – Faz 85 anos a 27 de Outubro, é um ícone da RTP, que toda a gente conhece, dos Jogos Sem Fronteiras, do Festival da Canção e Eurovisão…

ELÁDIO CLÍMACO – Depois de 50 anos dedicado a um trabalho específico, de locutor e apresentador, no dia seguinte, quando eu acordei, pensei “bom, são horas de ir para a RTP”. “Não, não, já não podes, estás reformado…” Isso causou-me um certo espanto, reformado, assim. Não acreditava, mas depois já tive que me adaptar à realidade.

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O que é feito de si, Eládio Táboas Clímaco?

Olhe, faço uma vida normal, uma vida de reformado, faço muitas coisas, todas pró-bono, porque infelizmente neste país é assim, que eu não me importo, como faço coisas que gosto.

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Pedem-me para fazer pequenos trabalhos, para ir aqui, para ir ali, vou com muito gosto, tudo o que é ligado à televisão, à rádio, e e nem sequer penso no resto.

ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: "A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!"
ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: “A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!”

Está reformado há cerca de 13 anos.

Vou indo, um dia sim, um dia não, por vezes fico um bocado em baixo, mas isto é normal, acontece a todos nós. Tento fazer o melhor possível, tento divertir-me, ir ao cinema, ir passear, ir até à Marginal, e estar por ali a passear, para um lado e para o outro, ir ver algumas cidadezinhas aqui ao lado de Lisboa, almoçar aqui ou acolá…

Sabe, eu nasci entre guerras, eu nasci no pós-guerra espanhol, e foi uma coisa, uma infância um bocadinho atribulada, porque a minha família é espanhola, a minha mãe era espanhola, como sabe, da minha família espanhola só estavam cá  os meus avós e os meus tios, o resto da família estava toda em Espanha, e esse pós-guerra marcou-me bastante, havia conversas tristes lá entre a família, tentavam aligeirar e tentavam sorrir e rir, para eu não ficar tão apreensivo, ou assustado, mas era assustador ouvir aquelas conversas que tinham morto, se mataram, e isso, entre o medo e a curiosidade, eu lá fui passando o pós-guerra da Espanha.

Nasci em 1941, na Segunda Guerra Mundial, e só voltei a Espanha com os meus clientes anos para dar, como é que eu hei-de dizer, para encontrar a realidade que eu conhecia, que me lembrava vagamente, das conversas que eu ouvia. Isso foi um período muito forte na minha vida, contactar com a família que tinha passado uma guerra cruel, e com amigos, amigos que estavam perfeitamente na miséria, não havia comida, nós não podíamos comer em casa, nós não tínhamos nada lá, não havia nada para comer, portanto só tínhamos um hotel que estava aberto e que nos servia, um bocadinho de carne, um bocadinho de peixe, e lá íamos todos os dias almoçar e a jantar, porque em casa só tínhamos pão, não tínhamos mais nada, pão e leite. Portanto, isso marcou-me bastante, e fez de mim a pessoa que eu sou.

Eles tentavam disfarçar para eu não ficar assustado, eu estava assustado um bocadinho quando os ouvia falar, mas tinha curiosidade para saber o que é que se passava. Portanto, eles sofreram a guerra aqui em Portugal, sofreram com a família que lá estava e que foi extremamente martirizada.

Ainda assim, conseguiu ter uma infância feliz? 

Foi passada num clima, numa família com muito amor, com muito sentido de que o filho é o filho e tem que ser protegido, e lembro-me de algumas coisas engraçadas. Durante a Grande Guerra em Lisboa, por exemplo, havia noites em que havia simulacros de ataques à cidade, e então os meus pais tinham que forrar os vidros todos das janelas com papel de jornal, porque uma bomba podia rebentar com os vidros.

Isto para mim era uma coisa, era um entendimento incrível. Estar a ver os vidros com papel de jornal, e às escuras, apagavam a luz, e eu perguntava porquê. E diziam, é guerra, é guerra. E eu já tinha uma noção da guerra, enfim, da guerra de Espanha, não tinha noção nenhuma desta, mas lá passei estes anos todos com muito amor, éramos uma família de classe média, com possibilidades reduzidas naquela altura. Lembro-me muito da altura do racionamento, uma coisa que me marcou, o racionamento.

ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: "A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!"
ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: “A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!”

Uma altura complicada…

Tínhamos que ir para a fila para ter um quilo de arroz, um quilo de açúcar. E a minha avó portuguesa, era extremamente bem disposta, não perdia o quilo de açúcar, nem o quilo de arroz. Ela levava-me pela mão, para isso, eu tinha a noção daquelas filas enormes para o racionamento. Isso também fez parte da minha infância. Depois, olha, aos seis anos fui para a escola francesa.

Estávamos numa altura de uma Europa francófona, fui para a escola francesa e aí estive até aos meus dez anos, a seguir fui para o liceu, depois a faculdade. Primeiro fui para a engenharia, não me dei bem, porque fiz a vontade do meu pai para que fosse para Engenharia Eletromecânica.

E deu-se bem?

Não! Fiz alguns exames, que passei, algumas disciplinas, e depois mudei de curso para a Faculdade de Ciências para Química. Mas a minha vontade era ser arquiteto, o meu pai nunca esteve de acordo com isso, queria que eu fosse engenheiro.

Teve que lhe fazer a vontade…

Só que então dá-se tropa, o que me tirou muitas possibilidades, porque eu já estava nessa altura a fazer teatro na Casa da Comédia, nos meus 18, 20, 21 anos. Fiz algumas peças com pessoas que hoje são famosas, como a Maria do Céu Guerra, e outras pessoas que, infelizmente, já não estão entre nós, a Maria do Céu está cá, uma boa amiga, e fiz peças do Almada Negreiros. Pronto, e depois, nessa altura, fui para a tropa e quando vim da tropa, disse ao meu pai  “não, acabou, acabou a sua vontade, eu quero ir para Arquitetura”.

E chegou a tirar o curso?

Cheguei, cheguei sim. Apanhei no último ano o 25 de Abril, e pronto, eles deram passagens administrativas, e eu recusei, os trabalhos de arquiteto estavam parados, não havia possibilidade nenhuma de começar a fazer arquitetura, fiz algumas coisas para mim e para Espanha, lá para a nossa casa, fiz alguns projetos e arranjei a casa, que é uma vivenda, e aquilo ficou bonito. É o único trabalho que eu tenho como arquiteto.

Como é que entra no teatro? Ou seja, houve sempre esse fascínio pela televisão, teatro, pelas artes?

Sempre fui ligado às artes e tive a sorte, aos 19 anos, de ser ensinado, por um professor magnífico, a fazer ensaios de peças de teatro, de poesia, tudo isso, e depois quando fui para a televisão já estava a fazer rádio, já estava na Rádio Graça. Depois de estar na televisão ainda fiz um ano de rádio, e pronto, fiquei ligado à televisão para o resto da vida.

 

A Rádio Graça, era de onde?

Era dos Emissores Associados de Lisboa. Fiz um curso, a Maria Carvalho de Alvarez da Guerra, a mãe da Maria do Céu, dizia “eh pá, tu tens uma voz boa”, coisa que eu nunca pensei. “Tu tens uma voz boa, tens de fazer aqui um programa, tens de ir à Rádio Renascença e ler um texto”. E assim foi, tinha a voz, pronto, a voz que tenho hoje, que disseram que era boa, de maneira que depois fui fazer um curso de voz e de teatro radiofónico para o CENI, que era o único sítio na altura que tinha cursos de rádio e de teatro, e fiz uma passagem pelos emissores associados todos, Rádio Peninsular, Rádio Voz de Lisboa, até ficar na Rádio Graça, onde fiquei quatro anos, e entretanto surge a televisão.

Entretanto, candidatou-se para a televisão?

Estava na Rádio Graça na altura, e a malta da Rádio Graça, quando abriu o concurso, eles inscreveram-me lá. Mas não estava nada à espera de entrar na televisão. E depois, foi aquela história de começarmos a fazer as audições, 500 pessoas que concorreram naquela altura, porque foi a primeira vez que a televisão abriu lugares para novos locutores, porque até então tinha o Henrique Mendes, o Fialho Gouveia, essa gente toda. E foi o primeiro ano que abriu as portas a gente nova. Senti-me perdido no meio daquilo tudo, e tínhamos que fazer provas de leitura e provas de entrevista, e de ir apresentar espetáculos no estúdio grande da RTP.

Foi uma coisa bastante complicada, fiz o melhor que sabia e o melhor que pude, com aquela alma de gostar de ser artista e de fazer aquelas coisas todas. E depois, um dia, quando aquilo acabou, telefonaram-me para casa a dizer que eu tinha ficado, que estava apurado. Eu fiquei assim um bocadinho, sei lá, olhe, fiquei curioso, apurado, olha que bom e tal, mas sem saber o que é que me esperava.

E esperava-o uma grande carreira…

Quarenta anos de televisão.

Quando foi fazer os testes, lembra-se de ter visto alguém pela primeira vez, que depois também foi selecionado, como por exemplo, Raul Durão ou a Maria Elisa?

Sim, o Raul Durão, o Balsinha, o António Santos, a Maria Elisa, a Ana Zanatti já lá estava a fazer as emissões da hora de almoço, mas também teve que se juntar a nós, assim como a Alice Cruz.

 

A saudosa Alice Cruz.

A minha querida Alice Cruz, a minha confidente, a minha professora, tudo o que eu sei devo a Alice Cruz, fora o talento que eu eventualmente pudesse ter, mas ela foi uma amiga do coração e uma confidente maravilhosa. E essa amiga, infelizmente, foi-se antes de tempo!

Quando chegou o 25 de abril, eu também devo dizer uma coisa. Antes do 25 de abril, eu devo muito ao Carlos Cruz. Nós começámos a fazer o telejornal da hora do almoço e, às vezes, o Carlos Cruz dava-se comigo, e dizia, “pá, estás muito porreiro nisto”. E dava-me assim umas dicas, isto, aquilo e o outro. E eu sempre tive o Carlos Cruz também como o segundo, a segunda pessoa que me ajudava, que era também um dos meus ídolos. Era o Henrique Mendes, muita gente com quem tive a oportunidade de me dar, de gostar e trabalhar.

Ainda hoje mantém contacto, por exemplo, com a Maria Elisa e o Carlos Cruz?

Amigos do peito, nunca fomos. Do peito tinha a Alice Cruz, e depois mais tarde, a Maria Elisa também fez exame comigo e uma pequenina de cabelo curto. Mais íntima, mas, de resto, com os meus colegas havia uma amizade, mas não uma intimidade, digamos assim. Portanto, a Maria Elisa depois seguiu o seu caminho.

O Carlos Cruz, que eu adorava, depois teve um problema idiota, assim, um problema por vingança pura e simples de alguém, claro, e ia visitá-lo, às vezes ia visitá-lo, ainda cheguei a ser convidado para o batizado da primeira filha, a Marta.

Manteve-se uma amizade com o Carlos, porque eu tinha um ateliê de escultura, e no dia a dia era uma pessoa de quem eu gostava muito. Tínhamos uma proximidade. Havia respeito dele por mim, e eu por ele. E com a Marluce, por quem tenho muita admiração e respeito. É uma mulher muito simpática, não há dúvida nenhuma. E muito solidária e carinhosa, é uma mulher extraordinária.

Onde é que estava no 25 de Abril de 1974?

Estava à porta da televisão, no Lumiar, com um tanque à minha frente, e eu tinha um descapotável na altura, o primeiro carro que eu tinha comprado, com o meu dinheiro.

Quando é que custou o descapotável?

90 contos! E então estava em frente a um tanque, e depois pensei, “agora é que eu estou lixado”. Mas o tanque estava parado, e de repente sai de lá um tipo que me diz “olááááá”, que tinha sido meu colega na tropa.

Fez a tropa onde?

Fiz a tropa em artilharia, em Vendas Novas, e depois na aviação. Tirei um curso em Paço de Arcos, e depois fui para o Montijo, onde estive três anos. A minha tropa foi longa.

Na RTP havia outro grande amigo, o José Fialho Gouveia.

Com o Fialho, claro. E depois, ele já estava divorciado, mas estava casado em segundas núpcias com uma Beatriz, com quem eu me dei muito nos Jogos Sem Fronteiras. E com o filho pequenino, que era o Zé Fialho, que tem agora uns 50 anos, que é a cópia do pai. Demos-nos bastante, porque estávamos oito dias, por exemplo, em Itália, oito dias na França, oito dias na Suíça, e aí tínhamos uma amizade. O filho do Fialho, com quem eu não me dou e tenho pena, mas as pessoas, às vezes, não é por mal, seguem o destino, é a vida, separamo-nos, uns vão para um lado, outros vão para outro, e depois a vida é complicada, não temos possibilidade de falar hoje, de falar amanhã.

E com a filha do Fialho, a Maria João Fialho Gouveia, mantém contacto?

Adoro-a, adoro-a muito. E ultimamente tenho mantido contacto através da Maria João Gama. A Maria João Gama tem um programa que é o Tributo, que passa aos fins de semana na RTP Memória. E tem feito tributos a pessoas, a colegas que já partiram, fez à Alice Cruz, fez ao Fialho, onde eu estive esta semana, mas que só vai ser transmitido no dia 11 de Novembro, imagine. A Maria João Fialho tem estado nesses tributos todos, eu tenho tido mais confiança com ela e mais intimidade. Gosto muito dela, é uma mulher muito agradável, muito amiga, com uma educação esmerada, com talento, muito metida com ela, muito simples, muito humilde. Tem feito livros do pai, e ela própria também escreve. Agora só falta é irmos tomar café, que é uma coisa complicada, porque às vezes não tomo café, só à tarde, e não há horários que possam coincidir.

Vamos recuar àquela altura em que só havia um canal de televisão, as pessoas que estavam dentro daquela caixinha mágica tornaram-se as mais famosas do país. Como é que era nessa altura, quando passou a ser uma figura pública, famoso, como é que as pessoas o tratavam na rua? Alguma vez se deslumbrou com essa fama?

Não, não havia vedetas, eram pessoas iguais. Era a simpatia do público que gostava de mim, porque eu tinha um grande respeito, e tinha uma adoração a esse público que às vezes me reconhecia, mas, curiosamente, nessa altura, no início, as pessoas tinham um certo receio em vir falar connosco. Não é como agora!

Eu agora, por exemplo, estou a jantar ou a almoçar num restaurante, e as pessoas levantam-se. É uma coisa que a mim me emociona muito. Levantam-se para dizer, “eu tenho que o cumprimentar. Você acompanhou a minha juventude!”. Eu fico sempre muito enervado, sem palavras. De maneira que eu agradeço, e muito obrigado, e boa sorte, e muita saúde.

E pedem autógrafos e fotos?

Pedem e eu dou. É claro que eu dou e fotos, agora as selfies estão muito na moda, claro que sim. Então não dou, vou-lhe falar. Eu dou e agradeço. Eu é que tenho que agradecer eles virem ter comigo.

ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: "A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!"
ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: “A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!”

E as revistas das figuras públicas, dos famosos?

Sim. Nessa altura eu tinha entrevistas com essas revistas todas. Eram revistas muito antigas, que me punham na capa, tudo o que eu fazia vinham-me perguntar, e punham, não sei. Eu fui sempre um bocado envergonhado, sabe? De maneira que, pronto, estava aí, eu percebia e dava sempre entrevistas para tudo. Para mim era uma honra que me viessem entrevistar, que me viessem falar, que me viessem fotografar. E há  uma coisa que ninguém quer dizer, porque têm vergonha, mas eu digo. Nós éramos convidados para fazer, na altura, uma coisa que chamava fotonovela. Então, havia revistas pequenas, a Maria e outras, tinham uma fotonovela. Era uma novela contada em fotografias. Por exemplo, eu fiz imensas, porque era conhecido, mas com atores. Portanto, era a fotografia, se eu estava zangado, tinha que fazer cara de zangado, e depois o texto contava a história toda. Fiz! Com outras pessoas também, meus colegas, que têm vergonha de dizer. Eu não tenho nenhuma, eu achava engraçado. Não era só engraçado, era porque gostavam de nós, senão não nos chamavam. Portanto, eu estava agradecido por isso.

Era bem pago?

Ah, não. Bem pago eu nunca fu!

Nem quando era a estrela do Festival da Eurovisão e dos Jogos sem Fronteiras?

Não , era aí uns 1800 euros no dinheiro de hoje. Depois tínhamos ajudas de custo para nos vestir, porque quem nos vestia eram as lojas. Mais para almoço, para jantar, para deslocação, pronto, e isso fazia para aí 2 mil e tal. Pronto, agora é 10 mil cada um, não é? Mas eu reformei-me com 3.200 euros.

E esse dinheiro dá-lhe perfeitamente para viver…

Sim, fiz a minha vida, tenho a minha casa, e comprei uma automóvel na altura de 90 contos. Também foi com a ajuda do meu pai. O meu pai teve um enfarte enorme, e depois sobreviveu, e tinha um carro enorme e que não podia conduzi-lo. E então, eu troquei o meu carro, o meu MG, o meu descapotável, por um R5 que ele via, na altura, uma publicidade, que era um carrinho que passava entre as pernas dos tipos que estavam a encher a gasolina. E ele dizia, eu quero aquele carro, eu dou por aquele. Não me deram dinheiro, nem eu dei, foi troca por troca, pronto, foi o carro do meu pai. E aí fiquei sem o MG, e ainda hoje tenho pena, mas pronto. Primeiro estava o amor pela família, e depois estava o resto.

Hoje acho que sou um bocadinho idiota, ou parvo, não sei porquê. Porque se eu vejo as pessoas todas a ganharem 7 mil euros por mês, 10 mil, 20 mil, e eu digo, pôxa eu sempre fui o gajo que deu a maior audiência à RTP, os Jogos Sem Fronteiras também deram no dia em que começou a SIC.

Era dia 6 de outubro de 1992.

Pronto, e nesse dia havia os Jogos. E, todos nós estávamos a dizer, pronto, lá vai a audiência por aí abaixo. Não, e ganhámos com 60%, pá, imagine!

Nessa altura havia esses valores enormes de audiências, impensáveis nos dias de hoje.

Não, não, não, mas é só para se ver a loucura que as pessoas tinham, e a malta nova com os Jogos sem fronteiras, era um programa realmente muito interessante, e que hoje, neste mundo caótico, nesta gente toda que não se dá uns contra os outros, era um programa que fazia falta, sabe? Depois de uma guerra em que tudo ficou de costas voltadas, como hoje é com os partidos. Naquela altura, não. E os Jogos Sem Fronteiras deram uma vivência muito grande à malta da Europa toda. Éramos todos iguais, reuníamos-nos, e era um programa com um interesse intelectual muito grande.

Durante quanto tempo é que os apresentou? 

Desde 1978 a 99. 21 anos a percorrer a Europa toda. Grande parte deles com o Fialho Gouveia. Mas depois o Fialho ficou zangado, saiu, e fiquei eu. E lá fui andando.

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ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: “A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!”

Nessa altura, a Maria Elisa era a diretora de programas.

Exatamente. Eu só queria dizer uma coisa. Eu estou nos Jogos, e isto é uma coisa que eu não esqueço e ele não deve saber, porque nunca me disse,  graças ao Carlos Cruz. Ele era o diretor, e quando os trouxe para cá, pensou no Fialho e em mim. É uma coisa que lhe devo. Se eu fui para os Jogos, se sou conhecido, se as pessoas gostam de mim dos Jogos Sem Fronteiras, é graças ao Carlos Cruz. Estou eternamente grato! Ele foi vítima de uma vingança pura e simples, horrorosa, das pessoas que queriam ver o homem mal. Realmente…

Uma vingança de quem?

Acho que é uma vingança. Não vou dizer.

Chegou a ir visitá-lo?

Sim, sim. Fui, sim, senhor. Eu fui visitá-lo, sim. Umas duas vezes ou três. Uma coisa que já não me lembro. Mas fui. E fui sozinho. Porque eu andava sempre à procura de alguém que fosse comigo. Mas fui sozinho!

O Eládio alguma vez teve também uma relação como a Lara Li e a Ana Zanatti, um companheirismo com alguém?

Eu quis casar, não tinha meio de subsistência nessa altura, ela também queria casar, eu tive que abdicar disso porque os meus pais não apoiavam o casamento, não apoiavam, a minha mãe não apoiava de todo, eu ainda pensei então se podíamos casar e viver com os meus pais mas eles não apoiavam, tive que sublimar essa paixão e sublimei-a aos 21 anos. Ela casou, tive imenso tempo em que a paixão não passou e ainda não passa, só me lembro dela, e quando falo com as minhas primas e a minha família em Espanha, pergunto sempre por ela. Já falei com ela várias vezes, ela tem cinco filhos, quatro filhas e um filho, que eu conheço e conheci, que às vezes falam comigo e eu falo com ela. Agora estou numa pausa, porque o marido morreu e ela está a viver com a filha. Ela é de Vigo, da Galiza, e está em Madrid a viver com a filha e eu, quando ela for para Vigo, gostava muito de a voltar a ver. Não são amizades passageiras, são amizades fortes e isso eu tenho! A família foi morrendo, as amizades fortes foram morrendo, e eu agora tenho um caso só, tenho ainda uma amizade que me olha como se fosse pai.

Estamos a falar de quem?

De uma pessoa minha amiga que,  sempre que pode, vem passar os fins de semana comigo, quando eu estou pior mete baixa para estar aqui a tratar-me, é uma pessoa cuidadora. As pessoas podem ter uma relação muito grande, mas a palavra íntimo não quer dizer sexo. Isso cada um é como é e pronto! A minha vida privada é a minha vida privada, as minhas amizades são íntimas são as minhas amizades íntimas.

Chegaram a querer saber se o Eládio era homossexual?

Curiosamente, é engraçado, normalmente das pessoas que têm muita visibilidade dizem sempre alguma coisa. Nunca senti isso, nunca. No meu caso é completamente infundado, não existe, nunca tive ninguém a referir-se a mim, nunca ouvi dúvidas sobre isso. Portanto, nunca tive que explicar nada. É a minha intimidade, que é só minha e eu exerço. A intimidade que tenho com as pessoas e mais ninguém tem que saber.

Dizia que tem aquelas alturas em que está mais triste, mas depois fica mais alegre, é um dia atrás do outro?

A velhice é muito incómoda, sabe? A Sara Afonso, a pintora Sara Afonso, dizia muitas vezes, “ai, Eládio, a velhice é muito incómoda, meu filho”. E é isso que eu estou a ver, a velhice realmente é incómoda e, às vezes, tenho quedas de humor, tenho pronto, essas coisas todas que acontecem, estou pior, estou um bocado deprimido, mas eu vou fazendo umas paragens, depois vou ao teatro e vou ao cinema e vou tomando os meus medicamentos, e vou ficar melhor, que como estou agora.

Mas já houve alturas em que teve vontade de morrer? Em que achou que o melhor era…

Não, não! Nos meus 40 anos de televisão, tive muita psiquiatria, que me davam remédios ótimos, adorei sempre, a vida estava mal e punha-me bem com os comprimidos.

ENTREVISTA EXCLUSIVA! ELÁDIO CLÍMACO: "A minha intimidade é só minha e eu exerço. Mais ninguém tem que saber!"
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Faz a sua vida normal, faz a sua comida, desloca-se bem…

Eu gosto muito de cozinhar, porque é a minha veia espanhola, cozinho coisas boas, pratos espanhóis. Gosto muito de um cozido à portuguesa, não é um cozido à madrilena, que eu esse não gosto. Gosto de um cozido à portuguesa e vou ao domingo, muitas vezes, no inverno, aqui a um restaurante próximo, comer o meu cozidinho à portuguesa.

Continua a cuidar de si, sem precisar de ninguém?

Tenho uma senhora que me ajuda. O meu amigo também tira licença sem vencimento e vem cá passar uma semana para ajudar e eu sinto-me muito acompanhado, parece que fico melhor claro, a solidão dá medos. Faço a minha comida, adoro alisar a minha cama, que eu não gosto de fazer a cama, gosto do lençol de baixo esticado.

Gosta de se deitar tarde, cedo?

Deitar às três para me levantar às sete, foram os quarenta anos de televisão. Agora faço uma vida mais calma, mais calma, estou até às duas, três da manhã a ver programas de televisão a ver filmes, a ler. Isso é terrível porque depois levanto-me ao meio-dia. Agora eu quero descansar. Há uma coisa que eu faço, às nove da manhã ponho o despertador para tomar o pequeno almoço e depois, às vezes, nem tenho sono. Mas como não tenho nada para fazer, vou para a cama outra vez.

Como é que vê hoje em dia o Festival da Eurovisão?

Eu não posso pronunciar muito porque os tempos são outros. Não percebo que isto seja um festival de canções, acho que é um festival de feri luminosa, de pequenos musicais. Projetores, efeitos visuais, inteligência artificial a trabalhar para tudo dentro da canção…

Tem apresentadores preferidos?

A Catarina Furtado, é uma apresentadora excepcional, excepcional, que está no lugar certo a apresentar aquelas coisas, é uma mestre extraordinária, eu acho que ninguém apresenta aquilo que ela apresenta que é o The Voice como ela.

E os reality shows, a Cristina Ferreira?

Não vejo, isso não vejo. Ela já me entrevistou várias vezes, agora desde que está na TVI nunca mais tive contacto, é muito simpática. Agora com as reality shows não quero nada, não tenho nada a ver com isso, nem vejo sequer, mas tenho respeito pelas pessoas que vêem. Quem é que eu posso dizer mais?! Gosto do Vasco Palmeirim que apresenta aquele programa na RTP1, o Joker, só não gosto dele a contar anedotas e rir-se das próprias anedotas. Se falasse com ele, dizia-lhe “não contes anedotas, só tu é que te ris, isso não vale a pena, mas acho que ele é um ótimo apresentador.

Continua a falar com o Herman?

Sim, tivemos uma ligação muito grande quando eu tinha o restaurante, o Adivinha Quem Vem Jantar em Alcântara. Foi um restaurante de 20 anos, um restaurante da moda que toda a gente foi lá j, antar desde os presidentes da república aos reis de Espanha, passou tudo por lá. E o Herman depois abriu uma casa ao meu lado, e dava-me muito com ele e pronto, éramos vizinhos, “empresta aí um nabo ou um tomate, qualquer coisa assim”. Depois fiz uma coisa com ele, o Nelo e Idália, fiz uma participação. Depois, por motivos que ninguém sabe, desligámos, não frequentamos os mesmos sítios, é uma pena, é uma pena, que eu adoro-o a ele e à mãe e acho que ele é o melhor é o melhor humorista português. E devo dizer-lhe uma coisa, o tipo que apresenta o ‘Isto é gozar com quem trabalha’, acho que é um ótimo humorista. Ele não é só humorista, ele também é um ótimo ator.

O Eládio era próximo do Carlos Castro?

Sim, ele morava aqui no meu prédio, uma pessoa que me respeitou muito, gostava muito de mim, me convidava para isso e para aquilo, para os eventos dele. Era um homem bom, era um homem que tinha as suas manias, que o levaram ao final que ele teve.

Também apresentou o ‘Melhor é Impossível’ com a Felipa Garnel.

Quando fizemos a primeira reunião com a produção, eu estava sentado, ela entrou por trás de mim, apontou e disse, quem devia estar aqui era o Paulo Pires. Não disse nada, aguentei durante um ano. Uma mulher inconcebível, desculpe, tenho que dizer isto. Sabe que eu não faço ondas e fiquei a aguentar durante um ano! Ela era vedeta, não lido muito bem com vedetas. Não gosto de dizer mal de ninguém, mas realmente foi a pior experiência, não gostei nada de trabalhar com ela, ela não queria trabalhar comigo, tinha de trabalhar com o Pires, é claro que a partida estava tudo estragado. Eu acabei por vencer, porque dei o prémio, a viagem às pessoas que eu gostava mais, e que ainda hoje falam comigo para me agradecer, porque ela queria dar a outras pessoas. Foi a minha vingança.

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O que gostaria que dissessem de si, no dia seguinte à sua morte? Tem noção que o país tem um grande carinho por si?

Sabe que eu sou eu sou humilde nessas coisas, não gosto de dizer, mas acho que sim.

Como é que quer que seja o seu funeral?

Que as pessoas vão como quiserem, vão como se estivessem a ver na televisão, cada um veste qualquer cor e até podem cantar e dançar. Mas quero ser recordado como um bom homem, um bom apresentador, que deu tudo o que tinha, como aquele tipo que se entregou ao público e deu de alma e coração.

Teve uma vida plena?

Sim. Mas podia ter tido mais. A minha vida podia ser completamente diferente, com aquela paixão. Se calhar teria sido melhor!

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