José Rodrigues dos Santos no ‘Dois às 10’: 10 anos de pesquisa dão origem a ‘O Palácio das Lágrimas’
O jornalista e escritor apresentou o novo romance, que chegou às livrarias a 20 de outubro e aborda segredos do regime de Estaline na União Soviética.
José Rodrigues dos Santos esteve na quarta-feira, 28 de outubro, no programa ‘Dois às 10’ para apresentar ‘O Palácio das Lágrimas’.
O thriller histórico chegou às livrarias a 20 de outubro e junta factos reais a uma narrativa de ficção, colocando Tomás Noronha numa missão secreta durante a guerra da Ucrânia enquanto expõe segredos da União Soviética sob o regime de Estaline. Dividida em três partes (‘Segredo’, ‘Revelação’ e ‘Terror’), a obra inclui um álbum ilustrado com figuras reais que inspiraram as personagens.
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Cristina Ferreira abriu a conversa a recordar a longevidade televisiva do convidado, que começou a apresentar o ‘Telejornal’ há 36 anos. O jornalista lembrou que lhe disseram ser “o apresentador, não é mais velho, mais antigo dos noticiários da noite na Europa”. Perante os elogios dos apresentadores por parecer estar sempre igual, explicou que o público se habitua a vê-lo diariamente, tal como acontece com o crescimento das crianças: “Como as pessoas me veem todos os dias, acabam por achar normal. Por exemplo, vê-se a minha imagem ali no ecrã e há diferença, pelo menos capilar, acho eu”.
Questionado por Cristina sobre se o público já o vê mais como romancista do que como rosto da informação, Rodrigues dos Santos distinguiu a realidade internacional da nacional: “No estrangeiro, forçosamente, porque ninguém me conhece da televisão. Conhecem-me dos livros. E é engraçado, pois vou em França e as pessoas reconhecem-me na rua e pedem autógrafos. São franceses, nunca me viram em sítio nenhum, para além dos livros”. Em território nacional, a tendência acaba por ser semelhante: “No caso de Portugal, é mais difícil dizer. No entanto, devo dizer que 90% das abordagens que as pessoas me fazem na rua não é por causa do meu trabalho na televisão, é por causa dos meus romances”.
Cristina notou a curiosidade desse fenómeno num país onde se diz ler pouco. O autor recorreu a um exemplo da literatura portuguesa para justificar o interesse do público: “O Miguel Sousa Tavares uma vez disse que se as pessoas leem pouco é porque também acham que não há coisas que sejam suficientemente interessantes para elas lerem. Porque se nós escrevermos livros interessantes, eu acho que as pessoas leem. E o Sousa Tavares mostrou isso com o ‘Equador'”. O convidado lembrou que, na época, se acreditava que livros extensos não tinham leitores, mas a obra “vendeu 300 mil exemplares” porque “se as pessoas acharem que vale o dinheiro, que conseguem retorno, que se vão distrair, que vão aprender coisas e que vão gostar, acho que funciona”.
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Para o jornalista, a leitura é a atividade que mais contribui para aumentar a inteligência, um hábito que traz da infância. “Quem lê muitos livros acaba por desenvolver um pouco mais o cérebro, porque o cérebro é como um músculo. Pesos e halteres desenvolvem os músculos”, comparou, deixando uma sugestão para quem quer ganhar o hábito: “Há uma maneira muito simples de começar a ler: é pegar num livro que achem que é bom, por exemplo este, mas pode ser outro também, e à noite só vão ler antes de dormir uma página. No dia seguinte outra página. Se o livro for bom, ao fim de três ou quatro dias estão a ler um capítulo inteiro, depois dois, depois três, depois a certa altura leem tudo”.
Cláudio Ramos abordou o preconceito literário e questionou se o autor considera não existirem bons ou maus livros. Rodrigues dos Santos corrigiu a ideia, apontando a subjetividade do gosto, e definiu o seu critério: “Eu considero que um bom romance, a boa literatura, não é aquela que tem um grande estilo, embora isso ajude. Não é aquela que conta uma boa história, embora isso ajude. É aquela que nos diz coisas verdadeiras sobre o mundo, sobre a vida, sobre nós próprios”. Para sustentar o argumento, citou Milan Kundera a propósito de ‘1984’, de George Orwell: “Ele disse: reparem que o livro, o estilo é banal, a história é fraquíssima, e no entanto é um livro da literatura universal. Porquê? Porque ele disse o que não podia ser dito naquela altura, em 48”. O escritor identificou-se com essa missão: “É o que eu gosto de fazer, eu sou um iconoclasta”.
A investigação para ‘O Palácio das Lágrimas’ durou dez anos e correspondeu à segunda tese de doutoramento do autor. “Basicamente neste romance o que eu vou contar, ou que eu vou expor, é os segredos que a Rússia, que Putin está a tentar que as pessoas não conheçam, está a criminalizar. Porque em 1991, com a queda do Império Soviético, o que aconteceu foi que foram abertos os arquivos secretos soviéticos e os historiadores, sobretudo os historiadores russos, começaram a investigar o que lá estava”, relatou. O conteúdo revelou-se de tal forma grave que a política mudou na década seguinte: “O que descobriram foi de tal modo chocante, mas realmente chocante e aterrorizador, que em 2000, quando Putin subiu ao poder, mandou fechar os arquivos. E mandou ilegalizar a divulgação de muitos dos factos descobertos, não por serem falsos, mas por serem inconvenientes”.
Cristina lembrou que o convidado já está impedido de entrar na China devido a um livro anterior e que foi avisado de que não poderá entrar na Rússia por causa deste novo trabalho, perguntando-lhe se esse lado inconveniente lhe dá adrenalina. “Eu entendo é que esse é aquele trabalho do romancista. Eu, para contar histórias banais ou para dizer o que toda a gente diz, não vale a pena. O que vale a pena é nós pegarmos em matérias sobre as quais as pessoas não têm conhecimentos ou têm conhecimentos errados”, respondeu, acrescentando que as sociedades estão cheias de mitos, dogmas e tabus que cabe ao escritor desmontar através da ficção.
Enquanto passavam no ecrã fotografias incluídas no final do livro, com imagens de Molotov, de executores como Petro Maggo (condecorado com a medalha de Lenine por executar milhares de pessoas) e de prisioneiros, o autor detalhou o que os arquivos revelaram: “Descobriu-se que os soviéticos faziam perseguições em massa de civis inocentes por razões de culpa étnica, isto é, eram culpados não pelo que tinham feito, mas pela sua etnia. E uma parte eram dedicados com quotas para fuzilamento e outros para deportação para campos de morte e campos de trabalho”. A legislação soviética ia mais longe: “Descobriu-se, por exemplo, que eles faziam fuzilamento de crianças. E aliás estava na lei, porque a lei permitia fuzilar crianças a partir dos 12 anos de idade”. O escritor enumerou ainda a existência de “pelo menos uma trintena de campos de morte” e o recurso a gaseamentos antes do regime nazi: “Eles faziam gaseamentos. Tudo isto antes dos nazis. Gaseamentos de pessoas inocentes, civis inocentes”. Nas imagens surgiu também o cemitério de Donskoi, em Moscovo, “onde eles mandaram uma empresa alemã, que era a Topf und Söhne, instalar crematórios para queimar os fuzilados, os executados”, a mesma empresa que mais tarde instalou estruturas semelhantes em Auschwitz.
Questionado por Cristina sobre como lida com a maldade humana para a transpor para o papel, Rodrigues dos Santos citou a epígrafe do livro, da autoria do russo Aleksandr Solzhenitsyn: “Para fazer o mal é preciso primeiro que se acredite estar a fazer o bem. Portanto, quando as pessoas fazem estas coisas, não acham que estão a fazer o bem? Neste caso, estamos a criar a sociedade perfeita, igualitária, fraterna. Isto são dores de parto”. O autor referiu que os nazis, a Inquisição e os jihadistas aplicaram o mesmo tipo de racionalização. Quando Cláudio perguntou se essa perspetiva não acaba por desculpar os autores dos crimes, o jornalista rejeitou a ideia: “Não, nós estamos é a ver claro. Portanto, eles fazem sucessivas racionalizações e as pessoas que defendem estes regimes estão também a fazer racionalizações da mesma índole”. Citando autores soviéticos como Vasily Grossman e Lev Kopelev, apontou o verdadeiro perigo: “O que desculpa verdadeiramente, e esse é que é o elemento perigoso, é quando nós pensamos: eles fizeram aquilo tudo mal, mas a intenção era boa. Mas é que as pessoas têm que perceber que todo o mal é feito, ou quase todo o mal é feito, porque a intenção é boa”.
Com um ritmo de publicação de um livro por ano, o autor explicou que trabalhou nesta investigação com pausas para escrever outros romances e que recorreu a uma técnica específica para construir a trama: “As personagens principais do romance são personagens compósitas, isto é, são personagens de ficção, mas tudo o que elas vivem, tudo o que lhes acontece, aconteceu a pessoas verdadeiras. Portanto, não vem da minha imaginação”. Já nas figuras secundárias, “mais de 90%, provavelmente 95%, são personagens verdadeiras” apresentadas com o nome real.
Casado com Florbela há 38 anos, é na mulher que encontra a sua primeira leitora e crítica. Quando ela não gosta de algum ponto, o processo é simples: “Procuro perceber porquê, porque ela funciona como uma primeira leitora e, portanto, ela vai-me dizer o que é que não está a gostar, depois eu raciocino sobre aquilo e, se eu achar que ela de facto tem razão, faço alterações”. O casal tem duas filhas, Catarina e Inês, que vivem atualmente no Reino Unido, uma advogada e outra médica. Sobre a distância, confessou que “custa um bocado porque obviamente que não é a mesma coisa”, lembrando que ele próprio trabalhou no estrangeiro e que a filha médica “escolheu a especialidade de psiquiatria para curar o pai”, gracejou, atribuindo a piada à própria filha.
No dia a dia, mantém a média de dez páginas escritas diariamente, sem horários rígidos: “Eu só escrevo quando me apetece. O problema é que me apetece sempre”. Não usa redes sociais como Instagram ou Facebook, cuja conta é gerida pela editora, porque “não perco tempo com isso” e prefere dedicar esse tempo à escrita, tendo abordado a inteligência artificial apenas como tema do seu romance ‘Imortal’. Garante dormir sete a oito horas por noite sem insónias: “Curiosamente, até durmo melhor quando estou a escrever. Porquê? Porque depois fico com a cabeça tão cansada que tenho um sono mais descansado”.
Com mais de 4 milhões de exemplares vendidos e um catálogo que o próprio corrigiu em direto tratar-se já do 28.º livro (embora anunciado inicialmente como o 25.º romance), Cláudio quis saber o que sente ao ver a sua dimensão internacional. “O impacto internacional é algo que a mim me torna orgulhoso. Os meus livros em muitos países, quando são traduzidos e vamos às grandes livrarias, não estão naquilo que eu chamo segmento étnico, tipo livros de autores escandinavos, livros de autores eslavos, livros de autores ibéricos. Não estão aí. Estão num sítio geral”, destacou, notando também a presença frequente nos aeroportos, locais muito competitivos reservados a obras com muita saída. Apesar de gostar de saber os números de vendas, tal como na televisão se acompanham as audiências, garantiu que ainda não tinha perguntado à editora pelos resultados deste novo lançamento. Sobre críticas, invejas no meio literário e boatos de que não seria ele a escrever as obras, encarou o tema com naturalidade: “Por cima que eu é que lancei, depois falaram nisso e de repente isso popularizou-se. Somos nós próprios que acabamos por lançar o boato”.
A fechar a conversa, garantiu conseguir desligar-se das notícias pesadas do quotidiano assim que chega a casa para assumir o papel de pai, marido e escritor, admitindo que a única fase do processo literário que detesta é a revisão, por obrigar a ler seis ou sete vezes o mesmo texto. Entre a escrita e a condução do noticiário da RTP, onde exerce a mesma função de comunicador, confessou que a despedida dos ecrãs já lhe passa pela cabeça: “Eu faço o ‘Telejornal’ há 35 anos, é normal que no dia em que eu fizer o meu último ‘Telejornal’ me vá custar um bocadinho”. E rematou com uma comparação sobre o passar da idade: “Até ao Cristiano Ronaldo está-lhe a custar abandonar o futebol, é normal, somos humanos. Antigamente nunca pensava, mas nos últimos anos comecei a pensar como é que vai ser o último”.