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Xana Carvalho: “Perdi a coragem, mas amanhã vou conseguir” – o relato da tentativa de suicídio

A cantora abriu o coração a Daniel Oliveira no 'Alta Definição' e descreveu os nove dias de internamento na ala psiquiátrica de Vila Franca de Xira, após o diagnóstico de transtorno bipolar.

Xana Carvalho foi a mais recente convidada de Daniel Oliveira no ‘Alta Definição’, da SIC, onde abriu o livro sobre um dos períodos mais difíceis da sua vida: a luta contra a depressão e o transtorno bipolar, que a levaram a uma tentativa de suicídio.

A artista começou por recordar um tempo anterior, quando, apesar de ter conseguido ajudar um casal a reencontrar-se, “a Ioca e o João estão bem, a Leonor está crescida, está linda, maravilhosa. São os dois um do outro outra vez. Eu consegui devolvê-los um ao outro”, ela própria se sentia a desvanecer.

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“Eu já não estava capaz. Perdi mesmo as forças, já não sabia o que é que queria, já não estava bem em lado nenhum”, confessou Xana Carvalho. Descreveu um “vazio” e uma “tristeza enorme dentro de ti, sem nenhuma razão aparente”, mesmo quando, em teoria, tinha todos os motivos para estar feliz, pois “o pior já tinha passado”. Sentia um “cansaço físico, um cansaço da alma”, que a consumia.

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A vida parecia ter encontrado um novo rumo com o regresso à música e o nascimento da filha Sofia, que se juntou à irmã mais velha, Leonor. “As coisas estavam bem, está tudo bem, a vida está realmente encaminhada”, garantiu. Contudo, em outubro de 2017, com Leonor a ter 10 anos e Sofia entre 5 e 6, a sua existência voltou a “virar do avesso”. Uma discussão com o pai, que também envolveu a mãe, precipitou-a numa nova fase depressiva. “Era uma tristeza que ia e vinha, ia e vinha”, detalhou.

Daniel Oliveira quis saber se essa tristeza vinha “espaçada no tempo”. Xana Carvalho confirmou, explicando que, por vezes, surgia “sem razão aparente”. Havia momentos de euforia, em que se sentia “muito bem, muito eufórica, muito à vontade”, seguidos por uma recaída na depressão.

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Perante o quadro de desespero, o apresentador questionou: “Como é que se tem força para continuar a ser mãe?”. A resposta foi crua: “Em piloto automático”. A artista admitiu que perdera a paciência, estava triste, e até o barulho das filhas a brincar “já me fazia confusão”. Via-se como um “peso” para o marido, João, e sentia que não era “a mãe que as minhas filhas mereciam”.

“Comecei a anular-me ali num espaço de dias e havia sempre uma ideia: isto vai ter que acabar, isto vai ter que acabar”, recordou. Até que um dia, pela manhã, a decisão foi tomada. Depois de levar Leonor e Sofia à escola e de o marido sair para o trabalho, Xana Carvalho voltou a casa. “Mal ponho a chave, Daniel, à porta de casa. Foi mesmo, é hoje, hoje tudo acaba”, atirou.

Entrou em casa, ainda fumou um cigarro e bebeu um café, sempre com a ideia fixa: “hoje vai acabar, hoje vai acabar, hoje vai acabar, não aguento, não aguento, não aguento”. Subiu ao quarto, pegou na arma do marido, sentou-se na cama e ficou “ainda alguns segundos com a arma à minha frente e a pensar, é isto que tu queres? É isto que tu queres? É isto que tu queres?”.

Nesse momento decisivo, a coragem faltou. “Foi por ter olhado para uma fotografia que eu tinha em cima do móvel da Leonor e a Sofia a dar um beijinho que a coragem faltou-me ali. Porque eu já tinha, já estava em posição”, confessou. Daniel Oliveira perguntou se estava mesmo “em posição”, e Xana Carvalho confirmou.

O apresentador quis ainda perceber se ela conseguia entender quem tem a coragem de o fazer. “Sim, é uma ideia de alívio que tudo acaba, o sofrimento acaba, Daniel”, explicou. Mas, para ela, naquele instante, “faltou-me a coragem”. Pensou em si mesma como “fraca. Tenta, vais conseguir!”. No entanto, algo a travou. “Existe alguma coisa dentro de ti, não sei se é para mim que sou mulher, o meu útero a gritar, por favor, não! A tua missão na vida não é esta, não é deixá-las desamparadas”, lembrou.

Foi então que ligou ao marido. “Digo automaticamente para o João, por favor, vem já para casa. E se [sic] levam para o hospital. Porque eu hoje perdi a coragem, mas eu amanhã vou conseguir”, disse-lhe. Nesse momento crucial, foi internada no hospital de Vila Franca de Xira, na ala psiquiátrica. Foi aí que recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar.

O médico que a atendeu na urgência explicou que teria de ficar internada, mas não contra a vontade. “Eu disse que sim, eu quero ficar, mas com medo, Daniel, com medo, porque eu não sabia. Havia algo estranho em mim, na minha cabeça. Eu estava em desespero, eu só conseguia chorar, eu só chorava. Porque eu não estava bem toda e eu estava a pedir socorro”, desabafou.

A experiência da internação foi dolorosa. João deixou-a no corredor da ala psiquiátrica e saiu a chorar, pois tinha de ir buscar Sofia à escola para o almoço. “Eu fiquei para trás e a sensação que tive foi, regressei aos 5 anos de estar completamente só. Com medo de ia passar por isto. Eu queria sentir proteção, eu queria estar com alguém, percebes? Mas não, ele teve que ir porque ele estava a ser pai e estava a ser bom marido, um bom companheiro”, recordou.

Nesse mesmo dia, à hora de almoço, Xana Carvalho encontrou-se com os outros doentes internados, em fila para a refeição. Na sala, enquanto todos comiam, “alguns com um ar mais frágil, cada um no seu estado, não é? Porque ali as pessoas estão despidas de tudo, as pessoas estão ali, estão a ser tratadas, pessoas que estão mais controladas, outras menos controladas”. O almoço era peixe, e depois de lhe darem a medicação, Xana Carvalho sentiu medo. “Eu dizia, não quero comer. E afastei, eu não quero comer. Não estava a conseguir porque estava a ficar com medo de estar ali. Era normal, foi o meu primeiro impacto, tinha medo de estar ali”, admitiu.

Uma senhora sentada ao seu lado ofereceu-se para lhe arranjar o peixe, mas Xana Carvalho recusou. No entanto, a forma cuidadosa como a senhora a incentivou — “Comer, mas tens que comer, mas de uma forma muito cuidadosa” — deu-lhe uma sensação de proteção. “Mas eu senti-me pequenina, pequenina. Eu viajei mesmo aos meus tempos de 5 anos, de 6 anos, de sentir medo de estar num sítio”, contou.

Foram nove dias de tratamento. João visitava-a todos os dias, enquanto Leonor e Sofia pensavam que o pai estava fora do país a trabalhar, num espetáculo. “Foram 9 dias duros, 9 dias em que conheci pessoas com histórias incríveis de superação. Ficámos com a ideia que tudo aquilo que me aconteceu a mim pode acontecer a qualquer um”, concluiu.

Daniel Oliveira perguntou se se sentiu a melhorar. “Sim, senti”, respondeu. A medicação e a terapia foram cruciais, mas também o contacto com outros pacientes. “Começas a olhar para as pessoas que te rodeiam, que têm o mesmo problema que tu ou não, mas estão ali na mesma luta e que estão motivadas a melhorarem. E depois os próprios profissionais de saúde foram incríveis em que me ajudaram também a ultrapassar, e isso ajudou muito”, explicou.

Sobre como passava os dias, Xana Carvalho foi direta: “Olha, Daniel, a fumar. Fumei muito. Eu acendia um cigarro com o outro”. Tinham um pátio onde podiam ir de manhã. “Há um auxiliar com um isqueiro. Então nós vamos, acendemos o primeiro cigarro com o isqueiro e depois são os outros cigarros todos”, rematou, com um sorriso.

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