Ao valorizar as escolhas pessoais em detrimento da exigência constante por títulos, o autor apelou a que o atleta continue a priorizar a própria felicidade.
Pedro Chagas Freitas recorreu às redes sociais para deixar uma extensa reflexão motivada pela mudança de Rafael Leão para o Galatasaray e, perante a avalanche de opiniões negativas que surgiram na internet a propósito do rumo desportivo do avançado internacional português, o autor decidiu dissecar as motivações por detrás do escrutínio público: “Rafael Leão foi para o Galatasaray e logo as caixas de comentários se encheram de frases que parecem ser sobre futebol, mas que são sobre nós“.
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O escritor começou por rebater a ideia de que o atleta terá deitado a perder o seu potencial ao escolher um novo destino desportivo: “1. ‘Tanto talento desperdiçado’. Desperdiçado por quem? Se alguém consegue ganhar 10 milhões e decide ganhar 5 para ter uma vida de que gosta, desperdiçou 5 milhões? Se um escritor poderia escrever 10 livros e escreve 5 porque prefere passar tardes com os filhos, desperdiçou 5 livros? Não sei. Contamos golos; não contamos tardes felizes, ou gargalhadas, ou jantaradas, ou o valor de gostarmos da nossa vida. Se houvesse uma Bola de Ouro para o homem mais feliz, suspeito que Leão era um candidato“.
De seguida, desmontou a acusação de que o jogador não atingirá o topo da carreira desportiva: “2. ‘Não vai a lado nenhum’. Onde fica esse lugar? Na Bola de Ouro? Nos cem golos pela selecção? Onde é esse misterioso sítio a que temos de chegar para podermos dizer que chegámos a algum lado? Estamos doentiamente viciados na ideia de que toda a gente tem de subir, progredir, crescer, melhorar, facturar, conquistar. Andamos todos num elevador doente: continuamos a subir sem sabermos o que existe no andar de cima. Quando surge alguém que parece não estar tão interessado em subir todos os degraus, ficamos furiosos. É uma pessoa perigosa para nós; faz-nos perguntar: e se não for obrigatório?”.
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O autor criticou a ambição cega da sociedade moderna, que privilegia a acumulação de bens materiais em detrimento do bem-estar pessoal: “Mais: eis uma palavra destrutiva para tantos. Mais dinheiro, mais títulos, mais seguidores, mais reconhecimento, mais produtividade, mais património, mais estatuto, mais golos, mais prémios. Mais, mais, sempre mais, estupidamente mais. Mais. E se for mais alegria? E se for mais tempo com os amigos? E se for mais dança, e mais orgasmos, e mais samba, e mais liberdade? E se for mais nada?“.
A fechar a publicação, manifestou a sua admiração pelo futebolista e deixou palavras de encorajamento para esta nova fase da sua vida: “Leão nasceu com um dom. Quem disse que o talento é uma dívida? Um dom pode ser liberdade; não tem de ser uma hipoteca. Parece-me um puto feliz, um craque da vida. Gosto dele por isso. Que merda interessa o resto quando se é feliz? Acima da felicidade não conheço nada. A melhor vida não é a que tem os melhores prémios; é a que tem os melhores dias. Faz o que te fizer bem, Rafael. Diverte-te. Se possível, diverte-nos, que bem precisamos. Deixa-nos discutir o que poderias ter sido. Tu vais estar ocupado a ser o que escolheste ser”.
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