A cantora Xana Carvalho abriu o coração a Daniel Oliveira no ‘Alta Definição’ de sábado, 18 de julho de 2026, para revisitar a depressão severa que enfrentou, a tentativa de suicídio e o internamento que se seguiu. Um testemunho cru, mas de esperança.
Recordou o período no internamento, um lugar de paredes altas e regras apertadas. Contou que não podia ter cordões e que as visitas do marido, João, eram escrutinadas ao pormenor. Os dias passavam entre medicação e exercícios no pátio, com o olhar fixo no céu.
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“Ali eu fui obrigada a parar, a pensar e a tratar-me”, disse. “E ainda bem que tudo isto aconteceu. Conheci pessoas que ainda hoje mantenho contacto, com vidas normais, felizes, que passaram um mau bocado como eu, pediram ajuda. Ninguém está livre. É muito importante valorizarmos a saúde mental, respeitar e estar atento ao próximo. De um dia para o outro tudo muda. Para mim, bastou uma fração de segundo: o facto de pôr a chave à porta e aquela ideia tornou-se uma certeza. Só me faltou a coragem.”
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Daniel Oliveira quis saber a dimensão desse “fundo”. Xana Carvalho descreveu-o como “muito fundo, um sítio escuro, frio, mas não estamos sozinhos nesse fundo. Temos imensas pessoas à nossa volta, só que ou não nos veem, ou não nos percebem, ou não sabemos verbalizar. E hoje, a falar contigo, parece inconcebível a ideia, mas ninguém está livre. O importante é falar. Eu, felizmente, consegui falar com o João, consegui pedir-lhe ajuda.”
A artista admitiu que, antes de chegar ao limite, era “muito boa a fingir que estava tudo bem”, mas que esse fingimento se torna insustentável. Há sempre gatilhos: “Já não era meiga para as minhas filhas, já não as conseguia ouvir. O grau de tolerância era muito baixo, mudava completamente. Quem nos conhece, quem vive connosco, tem de ter essa sensibilidade de tentar perceber que algo não está bem. A família é muito importante.”
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A cantora atirou que, embora se diga que “quem ameaça não o faz”, cada caso é um caso. “Temos de levar sempre tudo muito a sério. Falar com as pessoas, pedir para abrirem o jogo. Porque, às vezes, as pessoas têm medo de falar por medo do julgamento.”
O estigma em torno da saúde mental persiste, garantiu. “Sim, muito, muito grande”, respondeu, explicando que muitos associam as doenças mentais a “maluquinhos”. “Não é maluquinhos, é parte da saúde mental, a depressão, a bipolaridade. São doenças como outras quaisquer. Ninguém escolhe, ninguém quer. E é preciso as pessoas que estão connosco estarem muito atentos. Tentarem perceber os sinais. Da intolerância, da tristeza, é sempre preciso existir um diálogo.”
O regresso a casa, depois do internamento, e o reencontro com as filhas, Leonor e Sofia, foi um momento de viragem. “Foi bom, foi muito bom, porque eu parecia outra. Eu sentia-me pronta para a vida. Se calhar a medicação também ajudou-me a manter-me calma, mas vinha com vontade de viver em plenitude, renascida.”
A mais nova, Sofia, foi quem sentiu a mudança. “Ela dizia-me: ‘Mãe, tu estás diferente, estás meiguinha’. Pensei: ‘Meu Deus, o que é que eu estava a ser? Que tipo de mãe, que tipo de pessoa?’. E agora, olhando para trás, estava a tornar-me naquilo que não queria ser, a obrigar as minhas filhas a viverem mais ou menos o que eu vivi, porque elas também não sabiam como é que eu ia estar.” Antes, a paciência era escassa e as coisas “tinham que ser feitas”. “Eu chegava a dizer ao João: ‘Calma, tem calma, não faças assim’. E ouvir a Sofia dizer: ‘Estás tão meiguinha, mãe’, foi um chapadão sem mãos, mas ao mesmo tempo pensei: ‘A partir de agora tudo vai ser diferente’.”
As filhas, Leonor, de 20 anos, e Sofia, de 15, são, para Xana Carvalho, as suas salvadoras. “A Leonor e a Sofia são duas miúdas incríveis, acredito que vieram para nos salvar.” Explicou que falou com elas sobre o sucedido, de forma gradual e sem tabus. As crises, que não desapareceram mas estão mais controladas, são hoje abertamente discutidas. “Elas próprias dizem: ‘Tu hoje não estás lá muito bem’, ou ‘Hoje estou um bocadinho com os azeites’. Já sabem que ‘os azeites’ é quando algo está a querer aparecer. Mas existe espaço para conversa, não existem tabus entre nós. É a família que sempre sonhei e adoraria ter nascido numa família assim.”
O diagnóstico de bipolaridade trouxe clareza. “O facto de percebermos que aquilo que passamos é normal, que existe uma justificação, e não é assim só porque sim.” Ler sobre o transtorno ajudou-a a identificar gatilhos e a distinguir a sua personalidade dos sintomas da doença. “Eu sou uma mulher em construção, a conhecer-me, a construir-me. À medida que o tempo passa, vamos-nos conhecendo melhor, e a própria família que vive connosco também começa a dominar bem a questão, porque tem de conhecer bem. E acredito que seja muito exaustivo.”
Amar alguém em sofrimento exige “só mesmo com grande amor e com empatia, com paciência, mas impondo limites”. A cantora sublinhou que “o facto de estar em crise não legitima tudo”. “Existem coisas que não consigo controlar, mas tenho a capacidade de perceber: ‘Ok, excedi-me, estou a ir por um campo que não devia ir. Vou ser honesta: estou assim, peço desculpa, não estou a saber controlar, vais ter que me ajudar’. Tem de haver muito diálogo e respeito acima de tudo.”
Xana Carvalho reconhece a importância do seu testemunho. “Percebo e acho que cada vez mais temos mesmo de o fazer. Porque cada vez mais vemos pessoas a sofrer de ansiedade, com ataques de pânico. Tudo daqui. Por isso, tem de se tratar isto de forma muito séria. Da mesma forma que existe um médico de família, deveria existir um psicólogo de família, um psiquiatra de família. Isto tem de ser tratado. É cada vez mais normal nos tempos que correm.” Basta mostrar disponibilidade para que a pessoa “não se sentir só”, sem julgamentos como “isso não é doença, isso é preguiça, são coisas de gente doida.”
O medo de uma recaída está sempre presente. “Há. Há sempre. Mesmo com medicação, mesmo com tudo a correr bem, existe sempre um pequeno medo cá dentro, o tal medo que sempre me acompanha, que algo possa falhar. Tenho medo de começar a entrar numa tristeza imensa. Não digo que tenha medo que chegue ao ponto a que cheguei, mas tenho medo de cair em tristezas profundas. Tenho.”
Ainda assim, garante que consegue ser feliz. “Consigo. Tenho muitos momentos felizes, muitos. Sou grata a tudo o que já passei, apesar de não querer ter passado por tanta coisa, mas estes momentos fizeram-me quem sou hoje. Podia ter recebido mais carinho, mais proteção? Sim, podia, e se calhar hoje até podia ser um bocadinho mais confiante. Mas sou assim porque passei por isto tudo.”
A fé também teve um papel crucial, especialmente num momento de desespero: “A fé é importante. Essencialmente quando o João levou o tiro, ainda tenho marcas nos meus joelhos. Prometi que, se ele ficasse bem, ia de joelhos, fazia umas quantas voltas à volta do… É o desespero. ‘Se isto acontecer, por favor, eu faço isto’.” Cumpriu a promessa e, hoje, mostra as marcas com orgulho, enquanto João, o seu “pai incrível” e “marido excelente”, está “ótimo”.