Roger Basile apresentou-se no tribunal de Cascais como filho de Betty Grafstein e enteado de José Castelo Branco, conhecendo o arguido há cerca de trinta anos, aproximadamente desde a data do casamento com a mãe.
Advertido de que, devido à relação familiar, poderia recusar-se a depor, declarou pretender prestar depoimento e responder a todas as perguntas.
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O filho de Betty Grafstein, que residia em Nova Iorque, afirmou que o contacto presencial com o casal não era particularmente frequente, sobretudo porque viajava bastante por razões profissionais. Nos primeiros anos, os encontros aconteciam essencialmente nos Estados Unidos, durante jantares, festas e reuniões sociais. Quando a mãe estava em Portugal, as visitas de Roger eram esporádicas.
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Ao caracterizar globalmente o casamento, utilizou a palavra “conflito“, mas, quando questionado sobre o alegado medo que a mãe teria de José Castelo Branco, reconheceu que se tratava de uma perceção sua: “Era apenas um pressentimento, (…) Era apenas um pressentimento geral que eu tinha.” Roger considerava que a mãe se mostrava mais cautelosa ao falar do marido à medida que envelhecia, mas não identificou inicialmente um comportamento concreto que fundamentasse essa convicção.
O depoimento recuou a um episódio ocorrido muitos anos antes. Roger relatou ter recebido uma chamada de um amigo da mãe, que suspeitava de eventuais agressões. À chegada a Portugal, Betty Grafstein recebeu-o à porta de casa, de camisa de noite e a chorar. Segundo o seu testemunho, a mãe mostrou-lhe o corpo, exibindo marcas desde as costas até às nádegas e uma marca profunda no pescoço. O depoente afirmou ter visto pessoalmente as lesões, mas admitiu não ter presenciado qualquer agressão, explicando que a versão de que a mãe teria sido levantada por um fio ou colar lhe foi transmitida pela própria: “Foi a minha mãe que me contou o que lhe aconteceu.”
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O filho de Betty pediu à mãe que apresentasse queixa na polícia em Sintra e tentou convencer José Castelo Branco a abandonar a residência, algo que só aconteceu após a intervenção de um amigo. Não houve referência a qualquer assistência médica subsequente. Nos dias seguintes, Roger permaneceu em Portugal, tratou de assuntos logísticos e tentou convencer a mãe a regressar a Nova Iorque, mas Betty recusou.
Surpreendentemente, pouco tempo depois, Betty regressou aos Estados Unidos acompanhada pelo marido. Roger referiu que a mãe explicou a reconciliação com a promessa de José de deixar de beber, mas confessou não ter ouvido essa garantia diretamente.
Nos anos que se seguiram em Nova Iorque, o depoente relatou que a mãe aparentava estar normal nas ocasiões sociais, desempenhando o habitual papel de anfitriã: “Ela estava sempre ótima”. Questionado diretamente, confirmou não ter presenciado novas lesões ou agressões físicas: “Se ela teve algum ferimento em Nova Iorque, nunca me disse que foi o José que o fez”. Mencionou, no entanto, que o médico principal de Betty, o doutor Horbach, lhe teria dito que algumas lesões eram suspeitas, embora não tenha concretizado quais nem se foram diretamente atribuídas ao arguido.
Um ponto central abordado foi a mobilidade de Betty Grafstein antes da última viagem a Portugal. Roger reconheceu que a mãe já tinha limitações significativas, utilizando por vezes um andarilho, uma cadeira de rodas ou uma bengala. Apesar de afirmar que José Castelo Branco procurava fazê-la andar por se sentir embaraçado com a situação, quando questionado se alguma vez o viu forçar a mulher a caminhar, respondeu: “Não. Só ouvi dizer em segunda mão”.
Sobre a viagem de 2024, Roger afirmou ter aconselhado a mãe a não viajar, um conselho partilhado pelo médico assistente, que recomendou a utilização de meias compressivas. A decisão de viajar esteve relacionada com um batizado em Portugal. Posteriormente, foi informado por Marcela sobre a hospitalização da mãe e sobre a versão de que o marido não a teria deixado usar as meias especiais. Uma vez mais, assumiu não ter presenciado estes factos.
O alegado empurrão em 2024 foi o foco principal do inquérito. Roger contactou o hospital após ser informado por Marcela e enviou documentação médica e jurídica urgente, devido ao estado grave da mãe. Embora tenha percebido inicialmente que a situação estaria relacionada com um empurrão do padrasto, a defesa questionou: “Mas como é que soube que o José a empurrou?”. Roger admitiu: “Acho que descobri depois. (…) Talvez através da Marcela ou de outra pessoa qualquer. Não tenho a certeza.” O próprio depoente confessou não ter visto o empurrão, não ter recebido essa informação claramente da mãe e não identificar quem a transmitiu.
Ao chegar ao hospital em Portugal, chocou-se com o estado clínico da mãe, descrevendo-a como “uma mulher a morrer” e “completamente fora de si”. Durante duas semanas, acompanhou-a diariamente, notando ligeiras melhorias. Afirmou que a mãe queria regressar a Nova Iorque e manter o marido afastado, mas voltou a assumir que o medo de novas agressões era apenas a sua convicção pessoal.
A transferência para Nova Iorque envolveu uma operação complexa com apoio médico contínuo, paga e organizada integralmente por Roger. Atualmente, a mãe necessita de cuidados 24 horas por dia, não consegue alimentar-se sozinha, andar, ouvir ou ver em plenas condições, e apresenta deformações nos pés. O filho associou a deterioração física ao episódio ocorrido em Portugal, “por culpa do José”, uma conclusão que, no entanto, não é suportada por um relatório pericial neste depoimento.
Um elemento relevante que ficou por aprofundar diz respeito ao conhecimento de antecedentes clínicos de hiponatremia, que Roger confirmou existirem antes da interrupção da chamada. Sobre a alimentação da mãe, indicou que existiam doces escondidos no quarto porque José Castelo Branco os comeria se ficassem na cozinha e sugeriu motivações íntimas não confirmadas para essa restrição.
Na esfera financeira, Roger revelou gerir as despesas da mãe e a conta bancária há vários anos, embora não tenha conseguido precisar a data exata da procuração que lhe dá esse poder. Afirmou que a mãe suportava essencialmente todas as despesas e não se recorda de o arguido ter um rendimento profissional regular. Mencionou ainda uma alegada coação para hipotecar a casa em Portugal, um tema que carece de prova documental. Sobre as despesas no hospital da CUF, foi categórico: “Não, eu não paguei a conta. (…) Isso não era da minha responsabilidade.”
O interrogatório sublinhou a diferença entre o conhecimento direto do filho, que inclui o estado grave no hospital e as rotinas financeiras, e o conhecimento indireto sobre a autoria das agressões, dependente de testemunhos de terceiros. Ficam pendentes esclarecimentos documentais fundamentais sobre o histórico clínico e a documentação financeira.